Shirley Maria – Língua Portuguesa

MORFOLOGIA

Este texto, baseado nos autores Margarida Basílio (2009), Maria Carlota Rosa (2011) e Rosa Virginia Mattos (2002), é introdutório e tem a pretensão de servir como bibliografia complementar no estudo dos Tópicos de Morfologia na Gramática Tradicional.

E para estudar esta disciplina na GT, aproveito a oportunidade para sugerir algumas gramáticas a fim de fazer as devidas comparações entre os tópicos que envolvem a Morfologia. São elas:

BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 34 ed. SP,CIA Ed.Nacional, 1992.

CUNHA, C. & CINTRA, L. Nova Gramática do Português Contemporâneo. RJ, Nova Fronteira, 1985.

MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia. Tradição gramatical e gramática tradicional. 5. ed. São Paulo: Contexto, 2002.

MELO, Gladstone Chaves de. Gramática fundamental da língua portuguesa. 3 ed. Rio de Janeiro, Ao Livro Técnico, 1978.

ROCHA LIMA, C. H. da. Gramática Normativa da Língua Portuguesa. 28 ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 1987.

SAID ALI, Manuel. Gramática Secundária da Língua Portuguesa. São Paulo, Melhoramentos, 1964.

 

TÓPICOS DE MORFOLOGIA

A morfologia é a disciplina da linguística que descreve e analisa os processos e regras de formação e de criação de palavras, a sua estrutura interna, a composição e a organização dos seus constituintes. Uma das grandes questões subjacentes à investigação morfológica são os processos de formação de palavras. Os processos mais produtivos nas línguas são a flexão, a derivação e a composição e para cada língua existem regras que regulam a formação de palavras e cuja descrição também é feita pela morfologia.

Estrutura das palavras

“Observe a estrutura das palavras: sol, denti-ista, in-quiet-o, cant-a-mos, cha-l-eira

A análise destes exemplos mostra-nos que as palavras são formadas de unidades ou elementos mórficos.

São os seguintes os elementos mórficos ou estruturas das palavras:

raiz, radical, tema: elementos básicos e significativos;

afixos (prefixos, sufixos), desinência, vogal temática: elementos modificadores da significação do radical;

Os elementos mórficos dos grupos acima se denominam morfemas.

vogal de ligação, consoante de ligação: elementos de ligação ou eufônicos.

A) Raiz

É o elemento originário e irredutível em que se concentra a significação das palavras, consideradas do ângulo histórico. Geralmente monossilábica, a raiz encerra sentido lato e geral, comum às palavras da mesma família etimológica.

Assim, a raiz noc (do latim nocere = prejudicar) tem a significação geral de causar dano, e a ela se prendem, pela origem comum, as palavras nocivo, nocividade, inocente, inocentar, inócuo etc.

Uma raiz pode apresentar-se alterada: ag-ir, ag-ente, re-ag-ir, ex-ig-ir, ex-ig-ência, at-o, at-or etc.

Obs.: É a parte erudita (latina ou grega) que aponta a origem da palavra. Ex.: MACÉRrimo.

B) Radical

É o elemento básico e significativo das palavras, consideradas sob o aspecto gramatical e prático, dentro da língua portuguesa atual. Acha-se o radical despojando-se a palavra de seus elementos secundários (quando houver): CERT-o, CERT-eza, in-CERT-eza, CAFE-teira, a-JEIT-ar, RECEB-er, EDUC-ar, EXEMPL-ar, PERMIT-ir, ex-PORT-ação, in-OBSERV-ância…

Observações:

– Em certas palavras só existe o radical: fé, mar, sol, traz etc.; em outras, o radical coincide com a raiz: CAMP-o, NOC-ivo, re-NOV-ar, in-ÚT-il etc.

– O radical repete-se. Ex.: PEDRegulho, PEDRa, PEDREeiro

C) TEMA

É o radical acrescido de uma vogal (chamada vogal temática). Nos verbos, o tema se obtém destacando-se o –r do infinitivo: CANTA-r, BATE-r, PARTI-r etc.

Nos nomes, o tema é mais evidente em derivados de verbos: CAÇA-dor, DEVE-dor, FINGI-mento, PERDOÁ-vel, FERVE-nte etc.

D) AFIXOS

São elementos secundários (geralmente sem vida autônoma) que se agregam a um radical ou tema para formar palavras derivadas. Chamam-se prefixos, quando antepostos ao radical ou tema, e sufixos, quando pospostos. Assim, nas palavras inativo, empobrecer, internacional, desanimador, imperdoável e predominante, temos:

prefixo  radical  sufixo

in               at         ivo

em          pobr       ecer

inter        nacion    al

des         anima     dor

im           perdoá    vel

pre          domina   nte

E) DESINÊNCIAS

São os elementos terminais indicativos das flexões das palavras. As desinências nominais indicam as flexões de gênero (masculino e feminino) e de número (singular e plural) dos nomes. Exemplo: menin-o,  menino-s

As desinências verbais indicam as flexões de número e pessoa e de modo e tempo dos verbos. Exemplos: am-o, ama-s, ama-mos, ama-is, ama-m

                  ama-va, ama-va-s, ama-va etc.

A desinência  -o de amo é uma desinência número-pessoal, porque indica que o verbo está na 1ª pessoa do singular; -va, de ama-va, é desinência modo-temporal: caracteriza uma forma verbal do pretérito imperfeito do indicativo, na 1ª conjugação.

F) Vogal temática

É o elemento que, acrescido ao radical, forma o tema de nomes e verbos. Nos verbos, distinguem-se três vogais temáticas:

– que caracteriza os verbos da 1ª conjugação: andar, andavas etc.

– que caracteriza os verbos da 2ª conjugação: bater, batemos etc.

– que caracteriza os verbos da 3ª conjugação: partir, partirá etc.

G) Vogais e consoantes de ligação

São fonemas que, em certas palavras derivadas ou compostas, se inserem entre os elementos mórficos, em geral por motivos de eufonia, isto é, para facilitar a pronúncia de tais palavras. Exemplos: silv-í-cola, cafe-t-eira, pe-z-inho, cha-l-eira, gas-ô-metro, rod-o-via etc.

H) Cognatos

São vocábulos que procedem de uma raiz comum. Tais palavras constituem uma família etimológica. À raiz da palavra latina anima = espírito, por exemplo, prendem-se os seguintes cognatos: alma, animal, animador, desanimar, animação, almejar, ânimo, desalmado etc.

I) Palavras primitivas e derivadas

Quanto à formação, as palavras podem ser primitivas ou derivadas.

– Palavras primitivas são as que não derivam de outras dentro da língua portuguesa: pedra, terra, dente, pobre…

– Palavras derivadas são as que provêm de outras: pedreiro, enterrar, dentista, pobrezinho…

J) Palavras simples e compostas

Com relação ao radical, dividem-se as palavras em simples e compostas.

– Palavras simples são as que têm um só radical: livre, beleza, recomeçar, maquinismo, desmatamento…

– Palavras compostas são as que apresentam mais de um radical. “Seus elementos, em muitos casos, unem-se sem hífen: passatempo, automóvel, ferrovia, peixe-elétrico, melão-de-são-caetano.” (CEGALLA, 2005, p. 91-94)

 

2.1 Objeto de estudo da morfologia

 Tradicionalmente se define a Morfologia como a parte da gramática que estuda a palavra do ponto de vista da forma. Entretanto, é necessário especificar os termos centrais palavra e forma, ambos altamente indeterminados, além de comuns à linguagem técnica e à linguagem cotidiana e cambiantes, em diferentes visões do fenômeno linguístico. Segundo Mattos (2002), se considerarmos, por exemplo, a gramática clássica, a morfologia se concentra na flexão; o objeto de estudo seria o paradigma ou esquema de variações de forma da palavra na expressão de categorias gramaticais. No século XIX, a palavra deixa de ser a unidade mínima de análise linguística; a comparação de elementos gramaticais como suporte a hipóteses de relação genética entre línguas favorece a adoção de um modelo de descrição que reconhece formativos como raiz e desinência. O estruturalismo herda esta situação de desmembramento da palavra, sendo, portanto, natural o estabelecimento do morfema como unidade básica da morfologia. O objeto de estudo da morfologia no estruturalismo é, portanto, o morfema, e seus padrões de combinação. Em consequência, a palavra passa a ser menos relevante, ou mesmo questionável como unidade estrutural, ainda que Bloomfield, citado por Rosa (2011), proponha uma definição de palavra de crucial relevância na metodologia de análise descritiva. Saussure – também citado por Rosa (2011) – problematiza o escopo da Morfologia de outro ângulo, ao condenar a não inclusão da lexicologia no âmbito da gramática, juntamente com a morfologia flexional; por outro lado, considerando como do âmbito da morfologia a determinação de classes de palavras e formas de flexão, duvida que esta possa constituir uma disciplina distinta da sintaxe. Saussure explicita, ainda, os aspectos concretos e abstratos da palavra, e ressalta as dificuldades de delimitação.

Uma maior reviravolta no tema surge no gerativismo: nada mais radical do que a total eliminação da morfologia e, portanto, do seu objeto de estudo enquanto tal, nos primeiros momentos do gerativismo. Mas, mesmo quando instaurada a possibilidade de um componente morfológico na versão original da Hipótese Lexicalista, ainda assim o objeto de estudo da morfologia na Teoria Gerativa apresentará uma diferença fundamental em relação a abordagens anteriores, na medida em que este objeto se desloca da forma externa para o conhecimento interno, correspondente à capacidade de identificação de formas lexicais estruturalmente legítimas. O objeto de estudo da Morfologia no gerativismo não é a forma concreta das palavras, mas a representação do conhecimento lexical, através de regras que, em uma primeira fase, representam relações lexicais e, posteriormente, determinam objetos morfológicos. Mais recentemente, no enfoque da Morfologia Distribuída, a morfologia volta a ser dominada pela sintaxe. O morfema pode ser considerado novamente a unidade básica, mas a relevância maior é atribuída ao feixe de traços formais nos quais a inserção de traços fonológicos pode ser tardia. Assim, temos um retorno à situação do estruturalismo e das primeiras fases do gerativismo, em que a palavra se torna questionável como unidade básica da morfologia. (ROSA, 2011)

Talvez possamos dizer, então, que o objeto de estudo da morfologia tem oscilado entre duas possibilidades:

(1) a palavra: na gramática clássica, e, portanto, na tradição gramatical, a morfologia estuda a palavra e seu paradigma de variações de forma, na expressão de categorias flexionais; no gerativismo lexicalista, o objeto da morfologia é a palavra enquanto item lexical estruturado por padrões ou produto de regras de formação de objetos morfológicos.

(2) os elementos constituintes da palavra: no método comparativo, estes constituintes (raízes, desinências) são concretos; no estruturalismo, estes elementos (os morfemas) são, sobretudo, concretos, mas também abstratos, como meios de expressão de propriedades gramaticais; na Morfologia Distribuída, os morfemas são fundamentalmente abstratos, consistindo, sobretudo, em feixes de traços formais.

BASÍLIO, Margarida M. P. Morfologia: uma entrevista com Margarida Basílio. ReVEL. v. 7, n. 12, março de 2009. ISSN 1678-8931 [www.revel.inf.br].

Segundo Maria Carlota Rosa (2011), a diferença no tocante à unidade em que se centra o estudo morfológico – o morfema (unidade mínima de som e significado) e a palavra – redunda de maneiras também diferentes de focalizar a morfologia. De modo muito geral, podemos dizer que a noção de morfema está relacionada com o estudo das técnicas de segmentação de palavras em suas unidades constitutivas mínimas, ao passo que os estudos que privilegiam a noção de palavra preocupam-se com o “modo pelo qual a estrutura das palavras reflete suas relações com outras palavras em construções maiores, como a sentença, e com o vocabulário total da língua”. (ANDERSON, 1972, p. 7 citado por ROSA, 2011, p. 15-16)

A autora irá definir palavra afora o uso na escrita como: a) unidade fonológica; b) elemento mínimo da estrutura sintática e c) elemento do vocabulário da língua. (2011, p. 74) E definirá lexema (palavras no léxico) como unidade abstrata, que tem significado lexical e pode apresentar variações, caso se inclua entre as palavras variáveis. O lexema amar, por exemplo, representa a combinação virtual dos radicais que pode apresentar com todas as propriedades morfossintáticas com que se pode combinar e se quisermos focalizar apenas a primeira pessoa do singular do presente do indicativo, teremos AMAR acompanhado de uma única entre as possibilidades de realização das categorias gramaticais ou morfossintáticas TEMPO/MODO/Aspecto e número/Pessoa. A palavra gramatical ou morfossintática é o lexema (AMAR). (ROSA, 2011, p. 83-84)

2.2 Categorias morfológicas

Categoria significa conjunto de propriedades que se associa à determinada parte do discurso, como Caso, Pessoa, Tempo, Modo, Voz, Gênero, Número…

2.2.1 Categorias e propriedades

Segundo P.H. Matthews (1972, p. 161-162 citado por Rosa, 2011, p. 119), o termo categoria é empregado: a) para referir classes de palavras, como N (para nome) ou V (para verbo); b) para representar as dimensões de um paradigma, como Número, por exemplo; c) para cada uma das possibilidades de contraste no interior de uma dimensão, como Número Singular, Número Plural.

O uso em (a) se faz, em geral, nos trabalhos sobre sintaxe; em (b) para categoria morfossintática, uma vez que estamos voltados para modificações na estrutura da palavra cuja ligação com a estrutura sintática é estreita. A elementos como Presente, Passado, Futuro, membros da categoria Tempo, e que ilustram (c), aplicaremos a denominação propriedades morfossintáticas.

 2.2.2 Categorias morfossintáticas

 De acordo com Rosa,

“Uma categoria morfossintática é obrigatória para uma classe de palavras como um todo numa dada língua. Esperamos que qualquer verbo em português, por exemplo, tenha a dimensão Número/Pessoa.

A realização de uma categoria morfossintática junto a um lexema como esta ou aquela propriedade depende, no entanto, de mecanismos diversos dentro de uma construção. Se pensamos na categoria Número em português, por exemplo, não precisamos de muito esforço para concluir que sua realização nos adjetivos difere de sua realização nos nomes. É claro, não nos estamos referindo às terminações que concretizam Singular ou Plural, mas aos mecanismos sintáticos relacionados ao seu aparecimento numa palavra. O adjetivo em português terá o Número do nome que funciona como núcleo do constituinte. O nome, por seu turno, não se comporta do mesmo modo. No que respeita ao Número, é dele a propriedade (Singular ou Plural) que deverá ser visível para a concordância com os modificadores ou, no caso de funcionar como seu argumento externo, com o verbo.

A realização de uma categoria morfossintática num lexema se faz a partir de um elenco restrito de possibilidades. Anderson (1982, 1985b) propôs três tipos de realização para as categorias flexionais, mais tarde ampliados para quatro tipos (1992, 1997)”. (Rosa, 2011, p. 120)

 Em síntese:

Não é fácil definir categorias morfológicas, dada a heterogeneidade do conjunto tradicionalmente levantado pelos linguístas. O melhor em se tratando dessas categorias é fazer uma definição extensiva. Em português, nos interessam as categorias tratadas por soluções baseadas em flexão. Assim sendo, vamos considerar as categorias de número, gênero, pessoa, caso, tempo, modo. Poderíamos agregar à lista a categoria de definição, ligada ao uso dos artigos, mas em português esta categoria é um caso limítrofe que precisa de abordagem à parte.

Em outros idiomas, temos mais categorias como locativa, voz e categorias de caso mais ricas que a existente em português.

De forma simplificada, consideramos categoria morfológica a solução baseada em flexão, usada na língua para agregar traços específicos ao significado da palavra. Esses traços se distribuem de forma complementar, ou seja, quando um está presente, fica implícita a ausência do outro e todas as ocorrências possuem um dos traços possíveis.

Número

Nosso sistema de flexão em número comporta singular e plural. Línguas como o grego apresentam singular, dual e plural. A categoria número tem função semântica, pois indica singularidade ou pluralidade do significado do termo flexionado. Também apresenta função sintática, pois as frases em português seguem regras de concordância em que alguns termos da frase devem concordar entre si em número.

 Gênero

Em português, há dois gêneros: feminino e masculino. Não utilizamos o neutro, presente em idiomas como inglês e alemão.

Em alguns casos, a função da categoria gênero é semântica, como nos pares a seguir:

O menino/a menina, o gato/a gata

Nos exemplos dados, a categoria gênero define um traço semântico, ou seja, estabelece o sexo do ser representado pelo substantivo.

Em português, muitos substantivos a que não se pode associar característica de sexo, têm gênero implícito. É o que se vê na série a seguir:

O garfo, a colher, a faca, o prato.

Não é possível atribuir característica semântica de sexo aos substantivos do exemplo, mas em português, mesmo substantivos assexuados estão associados convencionalmente a um gênero para garantir o funcionamento das regras de concordância sintática.

Grau

Em português, há dois sistemas de flexão de grau: o diminutivonormalaumentativo, típico dos substantivos e adjetivos e o sistema normalsuperlativo, usado com adjetivos.

Não temos flexão de grau comparativo como ocorre, por exemplo, no inglês.

John is tall. (João é alto.)

John is taller than Paul. (João é mais alto que Paulo.)

John is the tallest. (João é o mais alto.)

Caso

O caso está presente em nossa língua nas flexões dos pronomes pessoais. Observe o exemplo:

Eu pedi o livro a ele.

Ele entregou o livro a mim.

Nas duas frases, o mesmo ente é representado ora por eu, ora por mimEu e mim têm funções semelhantes, mas são usados em contextos diferentes. Eu é empregado quando o pronome está em posição de sujeito da frase e mim, quando em função de objeto. Quando um lexema é flexionado segundo a função sintática que desempenha na frase, temos flexão de caso.

Em português, os pronomes pessoais apresentam duas flexões de caso: oblíquo e reto.

A flexão de caso dos nossos pronomes pessoais é um resíduo do latim que permaneceu em nossa gramática. Em latim, o uso das flexões de caso é bem mais intensivo, tanto que os substantivos em latim clássico apresentavam seis flexões de caso.

Pessoa

A categoria de pessoa é usada para discriminar as pessoas do discurso. Elas são três no português: primeira (quem fala), segunda (a quem se fala) e terceira (de quem se fala).

Tempo

Esta categoria morfológica também é típica dos verbos. Em nosso sistema verbal, temos basicamente três tempos: futuropassado e presente.

Modo

A categoria de modo está presente no sistema verbal do português. O verbo pode ser flexionado em três modos diferentes: imperativoindicativo subjuntivo. Simplificadamente, o modo indicativo é empregado para indicar ações de consumação certa, o subjuntivo para expressar ações hipotéticas ou o desejo de que determinada ação venha a se consumar e o imperativo é usado para incitar à ação.

Aspecto

Não existe só uma categoria de aspecto em português, mas três, que agrupamos em uma só por se manifestarem em apenas algumas flexões do sistema verbal.

De afirmação

O aspecto de afirmação está presente nas flexões verbais do modo imperativo. Este tempo verbal pode ter aspecto afirmativo, quando se incita positivamente à ação ou negativo, quando se incita a não consumar a ação.

De consumação

O aspecto de consumação ocorre nas flexões verbais do futuro do modo indicativo. Este aspecto pode ser confirmado, caso a ação seja considerada como certa no futuro ou então, cancelado, quando a ação é dada como não passível de consumação futura.

De duração

O aspecto de duração está presente nos tempos verbais do modo indicativo passado. Temos o aspecto pontual que indica ações consumadas em um momento específico. O aspecto durativo indica ações que se estendem para aquém e além de uma determinada marca temporal no passado. O aspecto imperfeito indica ações continuadas no passado. Por fim, o aspecto anterior indica ação consumada em um passado anterior a uma marca temporal do passado.

Outras categorias morfológicas

Existem mais categorias morfológicas em outros idiomas. Em português, não temos flexão de voz, como ocorre, por exemplo, no latim clássico. Em nossa língua, a distinção de voz é feita com soluções sintáticas que dispensam flexão.

O artigo: morfema flexivo de definição

A Gramática Tradicional e as convenções de escrita estabelecem que artigo é palavra, o que contraria a definição de palavra como forma livre mínima. Mas se admitirmos que artigo é morfema flexivo, então, temos mais uma categoria de flexão no português: a definição. A categoria flexiva definição supre a necessidade semântica de distinguir entre dualidades como: particular/genérico, próprio/comum, definido/indefinido. Os artigos do português apresentam flexão definida e indefinida.

Finitude

A Gramática Tradicional considera a categoria de finitude,  específica dos verbos. Há duas opções de finitude: finita e infinita. A flexão do verbo é finita quando porta informação de tempo e modo e infinita quando indeterminada em tempo e modo.

São finitas flexões como: fizemosfazíamos e faremos.

São infinitas: fazerfazendo e feito.

A rigor, a categoria de finitude pode ser tratada como a categoria das flexões indefinidas em tempo e modo. Tudo depende de como classificamos as flexões verbais em português. Optamos por desconsiderar a categoria de finitude em nossa análise porque não há prejuízo em tratar as flexões infinitas como indeterminadas em tempo e modo. Com isso, simplificamos a classificação.

2.2.2.1 Propriedades inerentes

São aquelas pertencentes a cada palavra e acessíveis à sintaxe, para que se faça, por exemplo, a concordância.

2.2.2.2 Propriedades de concordância

São aquelas que dependem das que estão presentes em outro item na estrutura sintática. Esse elemento é o controlador da concordância. O controlador determina as propriedades que serão estendidas pela concordância, secundariamente, aos alvos – isto é, aos elementos da construção que concordam com ele.

2.2.2.3 Propriedades configuracionais ou relacionais

São aquelas que dependem diretamente de sua posição em construções mais amplas e talvez de propriedades lexicais de outras palavras em tal construção. Entram aqui a indicação morfológica de relações gramaticais, incluindo-se os fenômenos tradicionalmente estudados como regência.

2.2.2.4 Propriedades de constituinte

Podem realizar-se em uma única palavra da estrutura, seja no núcleo, seja na primeira ou na última palavra do constituinte. Realiza-se no SN, isto é, no nome.

 2.2.3 Morfologia flexional

 É aquela marcação aberta de Gênero (masculino/feminino) entre as línguas do mundo. “A categoria de gênero é inerente nos nomes, mas frequentemente não é a base de qualquer processo gramatical aplicado aos nomes: realiza-se abertamente apenas em outras áreas da flexão, através da operação de concordância.” (ANDERSON, 1985b, p. 177 apud ROSA, 2011, p. 127) A morfologia flexional é aquela relevante para a sintaxe.

A flexão é a variação de uma palavra sem que haja alteração da sua categoria sintática. As categorias sintáticas afetadas pela flexão em português são os nomes, os adjetivos, os verbos e alguns determinantes e pronomes variáveis. Nos nomes e adjetivos, a flexão é marcada por uma substituição de morfemas no final da palavra que traduz oposições significativas de masculino/feminino e  singular/plural. O mesmo ocorre em alguns determinantes e pronomes flexionáveis em gênero e número, como os possessivos (meu, minha, meus, minhas) ou os demonstrativos (este, esta, estes, estas). Nos verbos, a variação dos morfemas flexionais fornece, para  o português, informações de Modo, Tempo, Pessoa e Número e distribui-se por três paradigmas flexionais ou conjugações (em -ar-er -ir).

A derivação opõe-se à flexão na medida em que a variação operada pelos morfemas (sufixos ou prefixos) pode conduzir à alteração da categoria sintática da palavra. Assim, a palavra ler (verbo), pode dar origem a uma rede de outras palavras com ela relacionadas quanto à forma, como reler (verbo), leitura (nome), legível (adjetivo) etc.

A composição cria palavras a partir da combinação de outras palavras, podendo estas manter a sua autonomia formal e acentual (no caso da justaposição, por exemplo: porta-chaves) ou perdê-las no caso de compostos mais antigos que sofreram alterações fonológicas profundas (na aglutinação, por exemplo: fidalgo – homem nobre).

 2.2.4 Vogal temática

 Segundo Basílio (1993, p. 295 citado por Rosa, 2011, p. 128), “(…) entende-se por vogal temática uma vogal que se agrega ao radical formando o tema, definido como a base morfológica para a flexão. A vogal temática é, portanto, um elemento de definição flexional: defini-se em oposição ao radical, caracterizando a base da flexão”.

Ex.: andá-      -va-      -mos

                    Tema*       Num/Pess

* Forma marcada para tempo

 2.3 Classes de palavras

 As palavras foram distribuídas em classes ou, na nomenclatura tradicional, em partes do discurso. São dez classes de palavras – nome, artigo, adjetivo, pronome, numeral, verbo, advérbio, preposição, conjunção e interjeição.

 2.3.1 A classificação das classes de palavras

As palavras, consoante o tipo de significado que têm, classificam-se em classes menores e em classes principais.

 2.3.1.1 Quanto ao tipo de significado: significado lexical e significado gramatical

Significado refere-se àquilo que denominamos tecnicamente significado lexical. Os nomes, os adjetivos, os verbos e os advérbios são palavras que, sozinhas, referem, basicamente, seres, qualidades, estados, ações, ou condições que os afetam, como modo, tempo, lugar. Entretanto, é difícil definir o significado de de se excluímos o ambiente em que se insere. Daí dizer-se que tais palavras têm significado gramatical. Preposições/posposições, conjunções, pronomes, artigos, verbos auxiliares fazem parte deste segundo grupo.

Desta distinção entre os tipos de significado que as palavras podem expressar, aliada a características sintáticas e morfológicas, decorre uma divisão das palavras em dois grandes grupos: as palavras lexicais e as palavras funcionais.

As palavras que têm significado lexical são rotuladas palavras lexicais, ou palavras de conteúdo, ou ainda palavras plenas ou contentivos. As palavras que têm significado gramatical são as palavras funcionais, também denominadas palavras gramaticais, palavras estruturais, palavras vazias, palavras instrumentais ou functores. (2011, p. 100-101)

A diferença entre os tipos de significado fundamentou a distinção entre morfemas gramaticais ou afixos e morfemas lexicais ou semantemas ou raízes. A significação do vocábulo resulta da soma dos significados desses elementos, pela composicionalidade. A raiz guarda o significado lexical. As palavras que têm raízes são aquelas que, na maioria das vezes, podem servir de base ao vocabulário novo que vai sendo criado em uma língua.

Palavras como de, no entanto, são desprovidas de raízes; por essa razão são referidas muitas vezes como morfemas. Os afixos flexionais e derivacionais concentram o significado gramatical. Se o conteúdo lexical costuma estar expresso nas raízes, e o gramatical nos afixos, é bom frisar, no entanto, que isso nem sempre acontece, e que as línguas podem tratar um mesmo conceito de modos diferentes. (ROSA, 2011, p. 102)

2.3.2 Quanto à possibilidade de gerar vocabulário: classes abertas e classes fechadas

As palavras que apresentam significado lexical formam, em geral, classes abertas, classes que, em princípio, sempre podem ser acrescentadas novas criações; as palavras que apresentam significado gramatical, formam classes fechadas.

2.3.2.1 Classes abertas

a) Nome (N): nome para os seres em geral; função mais comum: funcionar como argumento ou como núcleo de argumentos.

O menino      quebrou        a janela.

argumento    predicador    argumento

externo                              interno

b) Verbo (V): expressa ações e processos, isto é, um acontecimento representado no tempo; sua função típica é de predicado.

c) Adjetivo (A): indicam atributos ou qualidades; funcionam como modificadores do nome.

c.1) O cavalo branco

c.2) O cavalo é branco

d) Advérbio (Adv): indicam direção, local, tempo, modo, intensidade; são modificadores, mas não do nome; modificam o verbo (Falava lentamente), o adjetivo (felizmente), outro advérbio (É extremamente rico).

2.3.2.2 Classes fechadas

Carregam significado, geram vocabulário novo. São elas: pró-formas (pronome, pró-adjetivo, pró-advérbio, pró-verbo, pró-oração e pró-sentença), marcadores, determinantes, classificadores, auxiliares, conjunções, preposições/posposições, interjeições.

2.3.2.3 As Pró-formas

Pró-forma é a denominação que engloba as palavras que substituem ou uma palavra lexical, ou um sintagma, ou mesmo uma oração ou sentença.

Pronomes substituem os nomes ou sintagmas nominais.

Pró-adjetivos, pró-advérbios e pró-verbos (ex.: certos usos de fazer – Ainda não comprei o vestido, mas faço isso hoje): podem substituir tanto um adjetivo, um advérbio ou um verbo como um SA, SAdv, SV.

Pró-oração substitui uma oração. (Eu acho que sim. I believe so.)

Pró-setença é a palavra que pode, em isolado, servir de resposta a uma pergunta.

Você vai à festa? Não.

Você gosta de bolo? Sim.

Marcadores sinalizam uma relação gramatical (de modo: solicitar algo do ouvinte como: por favor; de polidez, usando senhor, senhora…).

Determinantes modificam o nome no caso do artigo por exemplo.

Auxiliares são verbos que expressam o Tempo, Modo, Aspecto, Voz dos verbos: Vou cantar/Tinha cantado.

Conjunções são palavras que unem elementos (conjunções coordenativas e subordinativas).

Preposições/posposições são elementos que ocorrem, respectivamente, antes ou depois de um complemento que inclui um nome, pronome, SN ou oração que funciona como um SN e, em conjunto com o complemento, expressam sua relação com outra unidade na oração.

Interjeições são a expressão de emoções e não têm relação sintática com o restante da frase.

2.4 Exemplos de categorias morfossintáticas mais comuns em classes abertas

A voz (ativa, passiva) e transitividade (transitivo, intransitivo) são exemplos de categorias morfossintáticas. Resumindo as possibilidades de flexão de cada categoria morfológica do português, temos a seguinte tabela:

Categoria Flexões
Número Plural e singular
Gênero Feminino e masculino
Grau Aumentativo, diminutivo, comparativo, e superlativo
Caso Oblíquo e reto
Pessoa Primeira, segunda e terceira
Tempo Futuro, passado e presente
Modo Imperativo, indicativo e subjuntivo
Aspecto de afirmação Negativo e positivo
Aspecto de consumação Cancelado e confirmado
Aspecto de duração Anterior, durativo e pontual
Definição Definido e indefinido

REFERÊNCIAS

ANDERSON, Stephen R. Where’s morphology? In: Linguistic Inquiry, 13 (4): 571-612.

ANDERSON, Stephen R. Inflectional Morphology. In: SHOPEN, Ed. 1985, v. 3, p. 150-201.

BASÍLIO, Margarida M. P. Morfologia: uma entrevista com Margarida Basílio. ReVEL. v. 7, n. 12, março de 2009. ISSN 1678-8931 [www.revel.inf.br].

CEGALLA, Domingos Paschoal. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005, p. 91-94.

MATTHEWS, P.H. Inflectional Morphology: A theoretical study based on aspects of Latin verb conjugation. Cambridge. Gr. Brit.: Cambridge University Press.

MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia. Tradição gramatical e gramática tradicional. 5. ed. São Paulo: Contexto, 2002.

ROSA, Maria Carlota. Introdução à morfologia. São Paulo: Editora Contexto, 2011.

Os exercícios abaixo foram extraídos da obra de Rosa (2011).

Exercício 1

Leia os textos indicados:

CÂMARA JR., J.M. Considerações sobre o gênero em português. Dispersos. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1972, p. 115-129.

CÂMARA JR., J.M. O nome e suas flexões. Estrutura da língua portuguesa. Petrópolis: Vozes, p. 77-86.

Neles, Câmara Jr. apresenta análises da flexão em português em que postula morfemas zero. Com que argumentos o autor defende o morfema zero?

Exercício 2

2.1 Por que a noção de palavra tem sido um tópico de controvérsias na linguística do século XX?

2.2 Defina morfe e morfema. Ilustre sua explicação com exemplos de português.

2.3 Qual a diferença entre alomorfe zero e morfema zero? Dê exemplos.

Indique a fonte de pesquisa.

Obs.: Para os meus alunos, trabalho em grupo (até cinco alunos). Deverá ser entregue.

Exercício 3

Apresente características da morfologia a partir da concepção do estruturalismo, do racionalismo e dos estudos gerativos.